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CÂNCER INFANTIL*

Chances de Cura podem chegar a 70%

 

Jorge tem 14 anos, mas o semblante sério e o jeito quieto o fazem parecer mais maduro. Pudera: nos últimos três anos, o garoto passou grande parte do tempo que seria destinado a diversões típicas da idade em clínicas e hospitais. No dia 19 de junho, finalmente essa situação começou a mudar. Depois de muito tempo de batalha, ele e sua mãe conseguiram encontrar um doador compatível de medula óssea. Com isso, as chances de Jorge se curar de uma leucemia cresceram bastante.
"Faz um mês que ele deixou a internação no Hospital de Clínicas. Graças a Deus, as coisas começaram a melhorar", diz a dona de casa Margarete Alves, que viajou de Curitibanos (SC) a Porto Alegre quando foi diagnosticado o câncer de seu filho. "Não havia um local especializado em transplante lá. Por isso, viemos para o Rio Grande do Sul", explica ela. A recuperação de Jorge continua agora na Casa de Apoio do Instituto do Câncer Infantil (ICI-RS), onde crianças e adolescentes são atendidos diariamente por médicos, psicólogos e assistentes sociais.

Por natureza uma doença avassaladora, o câncer requer ainda mais cuidados quando atinge crianças e adolescentes. Isso porque os pacientes são mais sensíveis e, muitas vezes, não compreendem perfeitamente a situação pela qual estão passando. Felizmente, essa realidade está mudando. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), as chances de cura podem ultrapassar os 70% se o diagnóstico for precoce e o tratamento ocorrer em centros especializados.
"Os índices de cura melhoraram muito com os avanços no tratamento. O uso de medicamentos combinados de forma inteligente e o surgimento de novos remédios têm ajudado muito", diz o presidente do ICI-RS, Algemir Brunetto.

A doença mais comum na infância é a leucemia, que atinge especialmente crianças pequenas, com idade entre três e cinco anos, em média. Para o médico Waldir Pereira, professor da Universidade Federal de Santa Maria e membro do comitê científico da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), prevenir é sempre melhor do que remediar. "Um diagnóstico precoce nunca é totalmente precoce. A leucemia avança muito rápido e é preciso recorrer a centros especializados o mais breve possível", ressalta ele, lembrando que palidez, anemia, febre, manchas e nódulos pelo corpo são possíveis sintomas da doença.
Estudos apontam que crianças que vivem em ambientes com condições sanitárias inferiores são menos propensas a sofrer de leucemia. Isso porque, ao ficarem sujeitas a infecções, desenvolvem certa imunidade. "Há várias teorias, assim como existem outras tantas que apontam motivos para o surgimento do câncer", afirma Pereira. Brunetto concorda: "Não dá para promover a falta de higiene como forma de curar o câncer. Além disso, estamos falando de uma hipótese, que mesmo verdadeira não seria a solução, pois implicaria a decorrência de outros males."

O câncer representa o terceiro maior índice de mortalidade infantil - perde apenas para mortes violentas (como acidentes e assassinatos) e doenças neonatais. A expectativa para 2010 é de que esses dados se modifiquem. Pelas perspectivas da Abrale, um a cada 250 adultos será sobrevivente de câncer infantil - uma prova de que o número de crianças curadas está aumentando.

"Aprendi a lidar com a doença do meu filho", diz agricultora. Semana sim, semana não, a agricultora Doraci Correa percorre 200 quilômetros de Torres a Porto Alegre com o filho Lucas Gabriel, de sete anos. O destino é a Casa de Apoio do Instituto do Câncer Infantil, onde o menino convive com outras crianças que moram no Interior e estão na mesma situação: em recuperação de um câncer.

Há um ano, Doraci soube que Lucas tinha um linfoma. A reação imediata foi de pânico. "Fiquei desesperada. A gente começa a pensar: 'Onde foi que eu errei, meu Deus?', e quer consertar de alguma forma. Depois entendi que não é bem assim, que foi falta de sorte, e comecei a aprender a lidar com a doença", explica ela.

A relação com o pequeno Lucas também ficou complicada. Quando a quimioterapia teve início, o menino tocou na cabeça e percebeu que estava perdendo cabelo. "Ele pediu para se olhar no espelho. Quando se viu, olhou para mim e disse que a culpa do que estava acontecendo era minha", diz Doraci. "Foi difícil, mas expliquei para ele que o cabelo ia crescer de novo."
Lucas teve que se internar algumas vezes, o que representou momentos de dificuldades para mãe e filho. O menino chegou a ficar hospitalizado por cinco meses, mas há três realiza o tratamento em casa. No entanto, isso não significou o fim dos problemas. Por conta das internações, o garoto perdeu um ano de escola e sofreu preconceito por parte dos colegas. "No colégio ele é muito discriminado. As pessoas acham que o Lucas tem alguma doença contagiosa por andar de máscara. Mas é justamente o contrário, ele usa máscara porque está mais sujeito a infecções", afirma a mãe.
O problema foi amenizado quando eles começaram a freqüentar a Casa de Apoio. "Ele se sente seguro, pois está entre iguais, brinca com outros carequinhas, como a gente diz. Aqui encontramos sempre o auxílio de um assistente social, de um psicólogo. Com essa ajuda, é mais fácil lidar com o câncer."

A corrida contra o tempo: Quando tinha apenas três anos e meio, a pequena Isadora teve que ser hospitalizada às pressas por causa de um tumor no rim. A técnica em enfermagem Lieli Vieira, mãe da menina, não sabia o que fazer. "Não queria levá-la para o hospital, mas sabia que era necessário. Tivemos que correr contra o tempo, pois o tumor era maligno e poderia espalhar-se para outros órgãos", afirma.

Isadora teve o rim retirado, passou por uma infinidade de exames e fez tratamento com quimioterapia. Hoje com oito anos, leva uma vida normal. "É claro que ainda há um receio de que o câncer volte, mas felizmente já faz quase cinco anos que ela teve o tumor, que não progrediu", diz Lieli.

A menina, que atualmente cursa a segunda série do Ensino Fundamental, surpreendeu a própria mãe durante o tratamento. "A Isadora amadureceu muito nesse período. Ela tinha consciência de que estava indo ao hospital para não sentir dor."

Apesar de não mostrar resquícios físicos do câncer, a doença ainda assombra a menina de outras formas. "Às vezes ela fica muito deprimida, acha que o tumor pode voltar e chora. Por isso, faz acompanhamento psicológico até hoje", explica Lieli.

 

*Daniel Sanes - Jornal do Comércio de 21 de novembro de 2007.

Fonte: http://jcrs.uol.com.br/noticias.aspx?pCodigoNoticia=6737&pCodigoArea=36

 

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